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O fundador > Coletânea

Sobre as origens da Ordem dos Cônegos Regulares

I
Meus queridos filhos,
inicialmente quero vos falar  da Ordem dos CR e depois contarei a história de nossa Congregação. Todo ensinamento dos Padres e dos Papas concorda em dizer que os Apóstolos eram religiosos e que a Ordem dos CR continua a Vida Apostólica.  Antigamente não havia Ordem, não se pertencia a uma Ordem, mas eram religiosos.
Os religiosos eram de dois tipos: os leigos e os clérigos. Os leigos que abraçavam a perfeição do Batismo, pois notem que o Batismo comporta a perfeição cristã, e quando alguém se faz religioso, não vai além  das promessas do batismo. Um leigo, mesmo vivendo no mundo, pode praticar esta perfeição do Batismo pelo desapego perfeito. Olhemos S. Luiz. Ele era um homem casado, vivia numa corte, dando festas esplendidas, vejam aquela oferecida ao rei da Inglaterra em ocasião do tratado de paz, onde gastou uma soma de 2 ou 3 milhões. Apesar de tudo isso, ele estava desprendido de tudo; abaixo de suas vestes suntuosas, ele tinha um cilício, praticava a perfeição cristã pertencia à alma da vida religiosa, sem pertencer ao corpo.
Na Igreja distingue-se a alma e o corpo da Igreja. O corpo são todos os batizados; a alma, aqueles que vivem em estado de graça. Há pessoas que podem muito bem pertencer à alma da Igreja, sem pertencer ao corpo, por exemplo, os protestantes de boa fé. No céu há somente aqueles que pertencem à alma da Igreja e que, então formarão a alma e o corpo da Igreja.
Igualmente no estado religioso: há alma e o corpo.
O corpo são aqueles que fazem profissão pública de vida religiosa; a alma são todos os cristãos que vivem desprendidos de tudo sem mesmo fazer profissão externa de vida religiosa, e no julgamento final veremos uns religiosos imperfeitos pertencer  ao corpo, enquanto que uns leigos perfeitos pertencerão à alma.. No céu nós formaremos todos uma só grande comunidade religiosa porque estaremos todos na perfeição da vida cristã, pois enfim, o que é a vida religiosa? É a observância perfeita do voto de castidade, pobreza, obediência. Agora, no céu, "neque nubent, neque nubentur” (ninguém casa ou casará) é o que nosso Senhor responde aos Saduceus que lhe perguntaram: «Mestre, após a ressurreição quem será o marido daquela que na terra tive sete? - Vocês não sabem o que estão dizendo - respondeu Jesus - no céu neque nubent neque nubentur.
A pobreza! Não possuiremos nunca mais os bens deste mundo; na morte deveremos, queira ou não, deixar estes bens; em troca teremos as riquezas de Deus, os bens do céu que possuiremos em comum, teremos todos a mesma felicidade, alegria, vida, ninguém poderá dizer: eu tenho uma coisa que tu não tens.
Quanto à obediência, faremos todos a vontade de Jesus. Aqui a vemos pelos sinais; no céu a veremos abertamente e a cumpriremos com alegria e diligencia.
"O estado religioso é a perfeição mesma do batismo”; eis porque antigamente quando um cristão queria se tornar religioso não fazia cerimônia de profissão explicita, se retirava no deserto ou levava uma vida de asceta no meio de uma cidade, praticando a castidade, a pobreza, a obediência.
Se isso é verdadeiro a respeito dos fiéis em razão de seu batismo, é ainda mais verdadeiro a respeito dos clérigos em razão de sua ordenação. (aqui também, nada de profissão explícita).
A ordenação exigia a vida religiosa com uma energia cada vez mais forte à medida que se avançava na hierarquia. Eis porque, hoje em dia, se fala que os bispos estão no estado de perfeição. Porém havia clérigos não religiosos que não queriam se separar de seus bens; qual era a proporção. Não há como dizer, mas sabe-se somente como eram tratados. Havia também clérigos regulares que continuavam administrando seus bens e suas propriedades (casas); isso se compreende até facilmente: nos primeiros séculos da Igreja, pegava-se freqüentemente leigos que governavam bem sua casa para tomá-los padres ou bispos, uma vez nas Ordens eram forçados a governar sua propriedade. Porém os Apóstolos, seus discípulos, dos quais Eusébio fala em sua História, eram perfeitamente pobres; os padres que iam evangelizar os povos e fundar as Igrejas eram realmente religiosos.
Sabe-se também. De fonte segura, que os clérigos regulares eram os mais considerados, sobretudo no sacerdócio, no diaconato: porém não há textos do primeiro e do segundo século que possa provar isso. Porque? Por duas razões: a primeira porque foi escrito pouco no 11 e no 21 séc.; os primeiros cristãos se preocupavam pouco em escrever; davam mais cuidado à tradição; a segunda razão é que a perseguição de Diocleciano, dirigida mesmo contra os "atos dos mártires e os escritos cristãos", teria destruído tudo o que concerne esta questão; mas quando temos em abun-dancia textos do 3º séc. Que concordam entre si, podemos bem acreditar ao que dizem sobre os apóstolos e os primeiros clérigos.
D: Gréa, ano 1893, St Antoine

II
A vida religiosa é proposta a todos os cristãos, mas nem todos podem abraçá-la. Na origem da Igreja, os cristãos de Jerusalém abraçaram todos o estado de perfeição e temos razões para acredi-tar que não somente praticavam a pobreza, mas que guardavam também o celibato. Esta situação durou até que os romanos assediaram Jerusalém por mais ou menos 35 anos. Jerusalém não foi destruída logo após sua reprovação: Deus lhe concedeu ainda esta chance para lhe oferecer o tempo de volta ao Messias e se converter. Mas ela não aproveitou.- "Ah! Se tivesses conhecido o tempo de minha visita, mas não, eis que virão teus inimigos e cavarão fossas ao teu redor”. É neste momento que foram abolidos os ritos judaicos, até lá continuavam e os primeiros cristãos não tinham rompido com eles. S, João e S. Pedro rezavam no templo. Quando os Romanos assediaram Jerusalém e seus ídolos pintados nos estandartes, compareceram aos olhos dos judeus, os cristãos compreenderam que chegaram os tempos preditos por Jesus, e assim deixaram a cidade para se refugiar a Pella, em número de 2 ou 3 mil.
Se a vida religiosa é proposta a todos os cristãos, ela o é ainda mais insistentemente aos clérigos; assim os clérigos devem ser escolhidos entre aqueles que aspiram a uma grande perfeição. En-trando no clericato (clero) abraçam a vida religiosa: a esse respeito temos um texto de S. Epifánio; mas não devemos figurar os religiosos daquele tempo como as atuais comunidades religiosas; mui-tas vezes não podiam viver juntos por causa da perseguição; viviam em suas famílias, em casas particulares e era distribuído a cada um o que lhe era necessário.
Nesta época não há uma fisionomia absolutamente uniforme nas Igrejas; nos países inteiramente convertidos, como a Ásia, os clérigos viviam em comunidade; nos países onde os pagãos eram a maioria e hostis, eles viviam como podiam. Sob Trajano, a Ásia menor era inteiramente convertida.- o culto do Crucificado reinava em todo lugar, escreve Plínio ao Imperador, não se faz mais cultos aos deuses. Se a Ásia era totalmente convertida isso não significa que todos eram batizados; eis mais ou menos como era a situação da religião nestes países: inicialmente os clérigos, depois os batizados (fiéis), entre eles os ascetas que levavam uma vida perfeita, vida mesmo de clérigos, pois, como diz S. Jerônimo "quidquid dicitur in monachis, redundat in clericis qui sunt patres monachorum" (S. Jerónimo, Epist. 54, ad Furiam, de vidmitate, T. 22, col. 552; = o que se diz a respeito dos monges, vale ainda mais para os clérigos que são os padres dos monges).
Depois vinham os catecúmenos, "vocati" (chamados), aqueles que se preparavam para receber o batismo, depois os "audientes" (ouvintes); os ouvintes eram muito numerosos, vinham à Igreja para escutar a Palavra de Deus, sem piano de receber o batismo, que muRas vezes adiavam até pouco antes da morte.
Compreende-se assim que nesta situação, os clérigos tivessem mais liberdade nestes países do que nos outros, assim como se encontra atualmente nas inscrições dos mártires destas regiões, grande número de textos que atestam a existência de comunidades de moças, de homens, de clérigos.
Nesta época de perseguição, foi difícil conservar a vida comum, mas os clérigos eram individual-mente religiosos.
Tal era a vida canonical dos primeiros tempos. Quando a paz foi devoluta à Igreja, ela assumiu um caráter diferente: a vida comum se regulariza, os clérigos moravam juntos, as horas do ofício foram especificadas.
D. Gréa, Setembro 1893. St Antoine


III
Nas palestras precedentes já vos dizia que a prática dos conselhos evangélicos era proposta com mais insistência aos clérigos do que aos leigos. Dizia também que nos primeiros tempos, a vida comunitária não foi fácil por causa das perseguições: os clérigos eram obrigados a viver em suas famílias; distribui-se a cada um o que necessitava para viver: essas distribuições eram feitas só àqueles que tinham renunciado a tudo; como prova temos textos de Eusébio de Cesaréia e de S. Epifánio. Naqueles tempos de perseguição, é compreensível, a vida religiosa era deixada à responsabilidade de cada um; como viviam em suas casas, uns a observavam fielmente, outros de uma maneira menos perfeita; quando a Igreja teve paz, pouco a pouco se restabeleceu a regulari-dade.
Juliano Pomero diz que estas palavras dos Apóstolos: "Eis que nós deixamos tudo» eram sua profissão religiosa. Diz também em seu tratado "De vita contemplativa clericorum" que o clérigo, abraçando a clericato renuncia a tudo. Renuncia a tudo seja vendendo seus bens e doando aos pobres, seja deixando à sua família, como também, doando-os à Igreja. Nesta situação deve ser ali-mentado com os bens da Igreja, que são o patrimônio de Jesus Cristo. Nosso Senhor usa esses bens em três modos:
Em sua pessoa, para o culto.
Na pessoa dos ministros, para seu sustentamento.
Na pessoa dos pobres, por meio das esmolas.
As esmolas dos fieis eram consideráveis: em Jerusalém, os cristão vendiam seus bens e entregavam o dinheiro aos pés dos apóstolos, em prol da Igreja de Jerusalém, para os santos que viviam em mosteiros, desculpe, estou me enganando, ainda não tinha vida comum, mas praticavam a vida religiosa em sua plenitude de modo que temos razão em acreditar que esta Igreja, que era judaizante, era formada por ascetas.
Essas esmolas eram trazidas no ofertório e oferecidas com o pão e com o vinho, em união ao sacrifício de Nosso Senhor. Trazia-se qualquer tipo de coisa: cédulas, escrituras pelas quais se doava à Igreja muitas terras e um dia foi trazido até um cavalo de guerra ricamente enfeitado por um senhor de Borgonha.
Após isso a Igreja teve bens imóveis, mas ela encarou estas propriedades como menos perfeitas do que as esmolas. S. João Crisóstomo dirige palavras duras aos cristãos de Constantinopla, a esse respeito: “O que está acontecendo? - grita ele - somos forçados a ser administradores, somos como fazendeiros, generais, hoteleiros; porque? Por causa de vossa crueldade, de vossa dureza de co-ração, fomos obrigados a tomar precauções para suprir à nossa existência; retomem seus bens e nos dêem esmolas, e nós não teremos mais preocupações”.
O bispo era o administrador destes bens, sem ser proprietário; tinha renunciado a tudo, como seus clérigos e por conseguinte não possuía nada; os bens da Igreja não lhe pertenciam, somente os administrava, os usava para o mantimento do culto, dos clérigos e dos pobres. Os clérigos que não tiveram a coragem de renunciar a seus bens não recebiam nada da Igreja; deviam servi-la gratuita-mente, e por esta renúncia praticavam a pobreza. Qual era a proporção destes últimos? Isto depende das coisas e dos lugares, não há como fazer uma estatística disso ai. Os bens da Igreja formam como uma só massa administrada pelo bispo, não tinha bens do clero; a mesma coisa nos mosteiros; os bens do mosteiro formam um todo administrado pelo abade e utilizado para o culto, o mantimento dos monges e dos pobres, ou quidquid dicitur in monachos redundat in clericos, monachus sive clericus, porque o clérigo por sua profissão é muito mais elevado do que o monge que é só leigo.  
S. Eusébio de Vercelli recrutava seu clero no meio de ascetas; S. Agostinho, por sua vez, exigia de todos os clérigos que ordenava o compromisso de abraçar a vida religiosa. Ele mesmo o diz num de seus sermões ou de suas cartas: “aquele que  quer ser religioso, atravesse os mares, interpele contra mim mil concílios, não será clérigo onde Agostinho é bispo”. Neste modo conseguiu ter um clero totalmente constituído no estado de perfeição.
Graças às esmolas dos fiéis, as Igrejas tornaram-se muito ricas e durante uma carestia que castigou as Igrejas da Gália, a Igreja de Alexandria pude equipar uma frota carregada de provisões para lhes trazer socorro.
S. Ambrósio dizia aos príncipes arianos que perseguiam sua igreja: «tirem todos os meus bens; ain-da assim, as esmolas dos fiéis serão suficientes para todos nossos necessitados».
Então os bispos começaram a usar esses bens em obras extraordinárias; fizeram construir fontanas, hospitais; S. Basílio construiu um hospital grande como uma cidade. O povo fazia questão de doar às Igrejas e S. Agostinho recusa um dia, o testamento de um pai que decidiu deserdar seus filhos, para doar seus bens à Igreja; o povo ficou descontente e dizia: temos um bispo que doa tudo e não recebe nada.
Na época das invasões, ao lado deste clero que Mons. De Montalambert chama impropriamente de secular, pois havia o secular e o regular, parece outro elemento: o clero monástico, do qual vos falarei em outra oportunidade.
D. Gréa, 6 de setembro 1893, St. Antoine

IV
Não era fácil encontrar clérigos que quisessem abraçar a vida religiosa em toda sua perfeição. Para remediar a esse mal. Alguns bispos recrutaram seu clero no meio dos monges e dos ascetas: lem-bramos S. Eusébio e S. Basílio. Foi assim que os monges entraram pouco a pouco no clero: inicial-mente eram leigos; se reunidos em comunidades o bispo lhes dava um padre para lhes administrar os sacramentos-, se dispersos nos desertos como os anacoretas da Tebáide, organizava-se uma espécie de paróquias. No meio do deserto cresceu uma Igreja atendida por um padre de Alexandria para as necessidades dos solitários. Os anacoretas se reuniam no sábado a tarde para poder assistir a missa no domingo e participar aos santos mistérios- na segunda feira voltavam, levando consigo a Santa Eucaristia. O padre tinha sobre eles uma grande autoridade. Esta autoridade e o respeito que gozava, tentou alguns solitários ambiciosos que deixaram suas células, foram se apresentar ao bispo para serem ordenados sacerdotes e voltavam ao deserto em qualidade de capelão: era um escândalo para seus antigos confrades e algo de singularmente ofensivo.
Entre esses monges havia uns tão perfeitos que o bispo julgava melhor ordená-los do que lhes enviar clérigos de sua igreja: foi assim que pouco a pouco a ordem monástica e a ordem canonical se reúnem, o abade torna-se padre (nem sempre: S. Bento era diácono) os monges clérigos guardavam a vida monástica, cantavam o oficio e atendiam os monges clérigos do mesmo mosteiro: "Multitudo laica monasterii".
Na Idade Média essas Igreja monásticas se tornaram importantes; os monges clérigos não vestia a línea que é a veste própria dos leigos, mas o byrrus; porém em certas circunstancia usavam a línea e a túnica branca.
Eis então um novo gênero de clero, pouco diferente do primeiro; não há grande diferença entre os clérigos religiosos e os clérigos monges, os dois se aproxima e, na Idade Média, viu-se conventos de Cônegos Regulares se tornarem beneditinos.
Esses monge-clérigos, inicialmente se ocupavam só dos leigos de seus mosteiros: em seguida foram usados no atendimento aos povoados ao redor do mosteiro, pois os colonos vieram se agrupar ao redor dos mosteiros. E para os colonos distantes, eis como vinham evangelizados. Um sacerdote de uma catedral e de uma "Colegial" (comunidade maior de Cônegos) numerosa partia para esses povoados e fazia estações. Essas estações atiravam para si os colonos, a população que se fixava ao redor e foi assim que estações se tornaram centros poderosos, paróquias atendidas por um cônego da catedral. Eis porque, na diocese de Besançon (esta é mais ao nosso alcance) havia uma quantidade de paróquias que pertenciam ao capítulo, e no Jura, um número igual pertencia à abadia de St. Claude.
Agora iremos falar das observâncias conservadas nas duas ordens. é sempre o mistério da morte, a crucificação do corpo com suas cobiças. As observâncias eram mais ou menos as mesmas para os monges e para os clérigos. Porém há algumas pequenas diferenças a notar.

D. Gréa, 11 setembro 1893. St Antoine
La Voix du Père, nº 1 – juillet 1947, pp. 1-7


 
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